27.12.09
Os Indesculpáveis
Excetuo-me de minha própria vida. Tivesse opção, escolheria amnésia eterna, largando meu passado de lado, e todos os erros que me constituíram e constituem deste modo detestável sem remédios. Às vésperas de novo rumo, gostaria fazer deste o primeiro, sem chance de erros, sem desilusões alheias. As minhas eu ainda suporto. É a dor em outros que me corta, é a dor dos outros que me sangra. Lentamente. Se ainda fosse de fato vil, sem que tudo isso que me consumisse... Se ainda eu fosse outra coisa que não esta matéria pulsante áspera e grosseira... Mas não sou, isto é, sou. E porque penso, amargo todas as misérias que, de certa forma, causei; é minha cólera, é meu fardo. Meus erros são meu peso, minha bagagem... E eu só queria que essa mala extraviasse, ou que a pegassem por engano. Mas a vida se encarrega de proibir. A vida, na sua justa medida, incumbe-se de fazer com que os tolos paguem. A memória é pena eterna dos indesculpáveis, e em mim é o que faz da saliva viscosa e biliar, intragável. Pensar e lembrar, tal é a natureza do homem, o que o faz sofrimento perene. É inegável, pensar é sofrer; lembrar é sofrer. E o homem só o é porque pensa, só existe porque lembra. A vida carece de posição; para que se viva, é absolutamente necessário que se situe. E do situar a memória é fundação, é estrutura inquebrantável e rija. Embriaguez nenhuma é cura, a não ser pelo fato de extinguir lembranças. Embebedamo-nos para evitar que lembremos de tudo, que é dor. Daí, se faz útil o abismo. A beira do abismo me é fundamental, é causa de meus repentinos desesperos – e cura. Jogo-me, sem dó, sem chão, não pretendendo mais que cair. E a solidão da distância é agravo. Distância do mundo, pois que a solidão nasce do sofrer, e sofrer é sempre solidão. São paradoxos que o viver impõe, e filósofo nenhum deveria meter-se a desvendar, já que sequer há vendas. É isso e ponto. Não se deve pensar, pois que é também agravo. Deve-se deixar fluir nesse rio de lágrimas que é a vida, que apenas o tempo atenua. Friso, não é cura. Não há cura para a condição humana, a não ser a morte. Contudo, morrer não é cura para nada, mas a saída última para a falta de. Não culpo os suicidas, os únicos que se assumem indesculpáveis, e por isso desistem. Não fogem – suicídio não é fuga. É, sim, prova de lucidez, de compreensão da insustentável relação guardada por debaixo de todos os panos: a relação do homem com sua cruel realidade. E a realidade humana é a insustentabilidade de toda e qualquer razão de ser.
18.12.09
Tempos Difíceis
Cai a chuva lá fora
Ou são rumores de tormenta?
São tempos difíceis,
Tempos sem tempo
Tempos sem pausas
É tempo de tudo
O tempo todo
E, por isso, sem tempo
O tempo é descanso
É intervalo. Pausa
Não há tempo se o tempo corre.
Não há tempo se não há eu.
O tempo que falta é o único
Tempo: o tempo de si mesmo.
E só há si mesmo na pausa
No suspiro
No respiro
Cai a chuva? Ou são todas as tormentas que sempre me atormentaram nesses anos que não passam, nesses anos em que não há tempo para passar...
Ou são rumores de tormenta?
São tempos difíceis,
Tempos sem tempo
Tempos sem pausas
É tempo de tudo
O tempo todo
E, por isso, sem tempo
O tempo é descanso
É intervalo. Pausa
Não há tempo se o tempo corre.
Não há tempo se não há eu.
O tempo que falta é o único
Tempo: o tempo de si mesmo.
E só há si mesmo na pausa
No suspiro
No respiro
Cai a chuva? Ou são todas as tormentas que sempre me atormentaram nesses anos que não passam, nesses anos em que não há tempo para passar...
15.11.09
O amor passou? Não, amor não passa, é coisa que fica. Amor não acaba, é permanente. As relações, ao contrário, acabam. Mas não por falta de amor. Relações acabam porque o amor não cresce, porque pára. Relações acabam porque não se atualizam, por falta de vontade ou de possibilidades. Pois todo ser humano é finito, e assim tudo o que dele nasce, como o amor. Mas este, ao nascer, desconhece ou faz questão de esquecer que o é. Tal é sua natureza, e seu problema. É finito, mas de pretensões totalitárias. De vila quer ser Estado, e daí Império. O amor nasce e quer alcançar sempre mais, e assim o faz até que esbarra na finitude de seu próprio criador, de seu próprio gérmen: o homem, que também se põe enquanto fruto, cada vez mais incongruente. É quando o amor pára. Não acaba, mas perde sua essência desvairada e irracional. O amor não é irracional, mas só assim funciona. É coisa que perdura ao aumentar, que permanece ao crescer, e que se corrói ao parar, por não agüentar a própria realidade que o acomete: a existência limitada, cercada. O amor tem limites, mas não fim. Nascido é eterno. A sensação do término não é a morte, mas a própria tentativa de suicídio desse sentimento, que de tão nobre, se recusa a viver se não pode transcender seus quereres. De tão nobre, tão louco. O amor não sabe esquecer, por isso dói. Pois tenta seguidas e insistentes vezes morrer. Mas não consegue, pois que além de finito, é perene. O amor fica. E, irracional que é, não agüenta. Por ficar, faz de tudo para morrer, incessantemente, incansavelmente. Sabe que não pode, que é imortal, mas se recusa a sê-lo. Por isso é naturalmente belo: porque vai de encontro a sua própria natureza. E é de sua natureza não aceitá-la. Por isso é tão admirável: porque quer ser melhor, mesmo que saiba que há barreiras intransponíveis à sua saga. É naturalmente imperfeito, e seu defeito é sua mais nobre característica.
28.9.09
Adeus
Acabo de retornar de um velório. Nada de extraordinário, com todos muito tristes, sobretudo pela idade do morto, acredito. Era jovem, muito jovem, mas não do tipo que acumulava virtudes. Não; este tinha defeitos – era notável mesmo na descida do corpo à cova. Engraçado, em enterros parece que todos perdem seus demônios, mas só parece. Claro estava que alguns, mesmo que poucos, se aliviavam centímetro a centímetro da inexorável descida ao eterno. Outros choravam.
Minha relação com o falecido era próxima, mas não o suficiente para estar na primeira fila. Melhor assim. Não havia sido apresentado à família; eu era mais amigo de amigos mais próximos. Passamos por muitas etapas juntos, e houve épocas em que nos distanciamos brutalmente. Nada de incomum para adolescentes que acham bifurcações e entroncamentos inexplicáveis no labirinto do qual se faz a vida.
Mas eram apenas etapas, apenas fases de silêncio mútuo e compartilhado. Fora essas, a relação travada chegou até a ser íntima, de desabafos. Isso, é óbvio, nas horas mais claras. Nas fases mais lúcidas e certas, mas não retas, pois que a retidão nunca foi algo presente, nem mesmo desejado.
Negávamos a correção, embora pretendêssemos a convivência e a autenticidade dentro de um sistema de adaptação necessário. Hoje eu quero ser livre para o que quer que exija minha liberdade. Quero ser correto para o que careça de correção e quero ser normal quando assim me aprouver. Quero a seriedade em coisas bobas, e a idiotice nas mais sérias, buscando, incansável, a interseção.
O curso de uma história deve ser de acertos. Mas os acertos trazem a face oposta: o erro. O erro é vida, é viver, e assim o acerto. São instantes que fazem o agente pensar e trazem intrínsecas reflexões automáticas de uma vida que passa. Pois a vida passa, e é ela tempo de refletir e aprender. A vida deve nos fazer pensar. Porque um dia a gente morre. Todos morrem. E a morte, seguida de velório, enterro e adeus, é hora que faz apenas os outros pensarem, e nada mais.
O corpo que se vai tapado vê-se estampado na face de cada um dos presentes. Põem-se todos a refletir, a pensar, não no falecido, mas em si mesmos, no que fizeram da vida e no que passarão a fazer, a partir de promessas vãs (a saber, toda pretensa racionalidade, se permeada por emoção, é vã). E assim o que se foi volta a ser presente. Ele se mantém enquanto os outros refletem sobre si, e não sobre ele. Mantém-se enquanto vida, enquanto os outros fazem vida, isto é, no que refletem sobre ela, sobre acertos e erros. Mantém-se enquanto fundamento de reflexão, pois que refletir é viver. Entretanto, essa reflexão cessa rapidamente. É quando o que se foi vai-se de vez; é quando os outros não notam.
O adeus é dado não quando da morte, mas no esquecimento, em seu sentido mais sutil e tênue. É dado quando o que seria perene embarca na fugacidade que o decurso do mundo nos impõe. Tolos são os que se despedem no cemitério. O adeus só é dado depois disso, quando a morte deixa de ser base de reflexão, quando deixa de ser vida. O adeus só é dado por quem é deixado. Quem o deixa mal sabe que se foi.
Minha relação com o falecido era próxima, mas não o suficiente para estar na primeira fila. Melhor assim. Não havia sido apresentado à família; eu era mais amigo de amigos mais próximos. Passamos por muitas etapas juntos, e houve épocas em que nos distanciamos brutalmente. Nada de incomum para adolescentes que acham bifurcações e entroncamentos inexplicáveis no labirinto do qual se faz a vida.
Mas eram apenas etapas, apenas fases de silêncio mútuo e compartilhado. Fora essas, a relação travada chegou até a ser íntima, de desabafos. Isso, é óbvio, nas horas mais claras. Nas fases mais lúcidas e certas, mas não retas, pois que a retidão nunca foi algo presente, nem mesmo desejado.
Negávamos a correção, embora pretendêssemos a convivência e a autenticidade dentro de um sistema de adaptação necessário. Hoje eu quero ser livre para o que quer que exija minha liberdade. Quero ser correto para o que careça de correção e quero ser normal quando assim me aprouver. Quero a seriedade em coisas bobas, e a idiotice nas mais sérias, buscando, incansável, a interseção.
O curso de uma história deve ser de acertos. Mas os acertos trazem a face oposta: o erro. O erro é vida, é viver, e assim o acerto. São instantes que fazem o agente pensar e trazem intrínsecas reflexões automáticas de uma vida que passa. Pois a vida passa, e é ela tempo de refletir e aprender. A vida deve nos fazer pensar. Porque um dia a gente morre. Todos morrem. E a morte, seguida de velório, enterro e adeus, é hora que faz apenas os outros pensarem, e nada mais.
O corpo que se vai tapado vê-se estampado na face de cada um dos presentes. Põem-se todos a refletir, a pensar, não no falecido, mas em si mesmos, no que fizeram da vida e no que passarão a fazer, a partir de promessas vãs (a saber, toda pretensa racionalidade, se permeada por emoção, é vã). E assim o que se foi volta a ser presente. Ele se mantém enquanto os outros refletem sobre si, e não sobre ele. Mantém-se enquanto vida, enquanto os outros fazem vida, isto é, no que refletem sobre ela, sobre acertos e erros. Mantém-se enquanto fundamento de reflexão, pois que refletir é viver. Entretanto, essa reflexão cessa rapidamente. É quando o que se foi vai-se de vez; é quando os outros não notam.
O adeus é dado não quando da morte, mas no esquecimento, em seu sentido mais sutil e tênue. É dado quando o que seria perene embarca na fugacidade que o decurso do mundo nos impõe. Tolos são os que se despedem no cemitério. O adeus só é dado depois disso, quando a morte deixa de ser base de reflexão, quando deixa de ser vida. O adeus só é dado por quem é deixado. Quem o deixa mal sabe que se foi.
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